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O que faz um deputado federal?

Tiririca, ou melhor, Francisco Everardo Oliveira Silva, deputado federal mais votado do país, eleito com 1,3 milhão de votos, foi diplomado hoje na Assembleia Legislativa. Durante uma entrevista Tiririca declarou: "levamos a campanha na brincadeira" e "na realidade agora, eu ainda não tô sabendo bem, mas quando chegar lá eu vou saber" - sobre as atribuições de um deputado federal.
Sorte ao deputado, que representa boa parte da população brasileira e que, provavelmente, mesmo com as dúvidas a respeito de sua formação,poderá provar que muitos outros, há tempos com o diploma na mão, também mereciam passar por um teste.
Relacionado a isto >>Texto interessante da doutora Dulce Magalhães - O Analfabeto do futuro - "Competitividade, globalização e empregabilidade são expressões repetidas como palavras de ordem. Porém, o seu real significado está distorcido pela banalização do uso. A base de todo o movimento de mudanças que essas palavras representam é a competência, que precisa ser vista como a habilidade de realizar". Leia na íntegra.
(Foto:agência o Globo)

Jornalismo ambiental


O artigo do professor Pedro Campos foi elaborado a partir de sua tese de doutorado "Jornalismo ambiental e consumo sustentável". Ele está disponível neste link.

Rui Barbosa

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, diz:
"- Dotô, eu levo ou deixo os pato?"

*bucéfalo - indivíduo ignorante, rude e/ou pouco inteligente
*sorrelfa - dissimulação silenciosa para enganar ou iludir; sonsice, socapa
*fosfórica - que brilha como fósforo em chama
*sinagoga - cabeça

Esse caminho tem coração?

Esse caminho tem coração?

Segunda-feira, 28 de janeiro de 1963

- Se você completar o segundo passo com êxito, só poderei mostrar-lhe mais um passo - disse Don Juan. - Durante a aprendizagem sobre a erva-do-diabo, compreendi que ela não servia para mim, e não continuei mais no seu caminho.
- O que o levou a se decidir assim, Don Juan?
- A erva-do-diabo quase me matava cada vez que eu tentava usá-la. Uma vez foi tão ruim que eu pensei que estava liquidado. No entanto, eu podia ter evitado todo esse sofrimento.
- Como? Há um meio especial de se evitar o sofrimento?
- Sim, há um meio.
- É uma fórmula, um processo, ou o quê?
- É um modo de se agarrar as coisas. Por exemplo, quando eu estava aprendendo a respeito da erva-do-diabo, era por demais ansioso. Agarrava as coisas assim como as crianças agarram confeitos. A erva-do-diabo é apenas um entre um milhão de caminhos.
Tudo é um entre um milhão de caminhos (un camino entre cantidades de caminos). Portanto, você deve sempre manter em mente que um caminho não é mais do que um caminho; se achar que não deve segui-lo não deve permanecer nele, sob nenhuma circunstância. Para ter uma clareza dessas é preciso levar uma vida disciplinada. Só então você saberá que qualquer caminho não passa de um caminho, e não há afronta para si nem para os outros, em largá-lo se é isso o que seu coração lhe manda fazer. Mas sua decisão de continuar no caminho ou largá-lo deve ser isenta de medo e de ambição. Eu lhe aviso. Olhe bem para cada caminho, e com propósito. Experimente-o tantas vezes quanto achar necessário. Depois, pergunte-se, e só a si, uma coisa. Essa pergunta é uma que só os muito velhos fazem. Meu benfeitor certa vez me contou a respeito, quando eu era jovem, e meu sangue era forte demais para poder entendê-la. Agora eu a entendo. Dir-lhe-ei qual é: esse caminho tem coração? Todos os caminhos são os mesmos: não conduzem a lugar algum. São caminhos que atravessam o mato, ou que entram no mato. Em minha vida posso dizer que já passei por caminhos compridos, mas não estou em lugar algum. A pergunta de meu benfeitor agora tem um significado. Esse caminho tem um coração? Se tiver, o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração e o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece.

(The Teachings of Don Juan - Carlos Castaneda)

Espelho

"Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. (...) Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma..."
(O espelho, Machado de Assis)

Verdade

A Verdade

"Na Inglaterra havia um homem que, apesar de ter bastante dinheiro, esposa e dois filhos maravilhosos, resolveu um dia sair pelo mundo em busca a Verdade. Conversou sobre isso com a mulher, providenciou para que nada lhe faltasse durante sua ausência, e saiu pelo mundo.
Andou durante muitos anos perguntando sobre a Verdade pelos quatro cantos da Terra. Até que um dia alguém apontou uma montanha para ele e disse:

'Lá em cima tem uma gruta. Dizem que é onde mora a Verdade.'
O homem subiu e encontrou uma velha suja e maltrapilha sentada na entrada da gruta.
'Você é a Verdade ? - ele perguntou e ela respondeu que sim numa voz tão cristalina e encantadora que ele não teve dúvidas de que estava diante a própria.
Resolveu ficar ali, morando com ela e aprendendo mais sobre a vida e as coisas.
Depois de um ano e um dia, sentiu finalmente saudades de casa e resolveu voltar. A Verdade não se opôs. Ao se despedir, o homem perguntou:
'O que eu poderia fazer por você, depois de tudo o que você fez por mim ?'
A Verdade parou e pensou. Depois levantou o seu dedinho de velha e disse:
'Quando perguntarem sobre mim, diga que sou jovem e bonita !”.

Esperança

O olhar do coração nos revela um mundo
que não obedece às leis dos homens,
Mas à lei da vida.
O olhar do coração nos mostra que a terra
e suas florestas não têm bandeira, que os rios
atravessam os países sem perceber fronteiras
e que o ar é livre porque é de todos.

De repente, um novo mundo surge diante
de nossos olhos. Não vemos mais países,
mas regiões, não vemos mais territórios, mas
cultura, não vemos mais conflitos de
fronteiras, mas gente diferente com as mesmas
necessidades e sonhos, com as mesma buscas
de harmonia e felicidade.

Com esse novo olhar, começamos a ver
o mundo ao nosso redor e a explorar tudo
o que nos une: a terra, as florestas, os rios,
as montanhas, o sol e o ar. (...)

É esse o olhar do coração
coerente, pacificador, perspicaz
que será capaz de orientar um respeito mútuo entre nações,
de gerar paz.

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario Quintana

Poesia

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mario Quintana
O Universo não é uma idéia minha...

O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Fernando Pessoa

Viagem

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir. Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o principio, é o nosso conceito do mundo.
É em nós que as paisagens tem paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como as outras. Para que viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e gênero das minhas sensações?
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa
 
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